domingo, 24 de abril de 2016

Alemanha, um conto de inverno



Heinrich Heine - Alemanha, um conto de inverno (Caput I)

Foi no triste mês de novembro, As tardes eram turvas, estranhas, O vento desfolhava as árvores, E eu viajei para a Alemanha.
E quando cheguei à fronteira, Sentia no peito o pulsar, Creio até mesmo que os olhos Principiavam a pingar.
E quando ouvi a língua alemã, Tive uma sensação diferente: Sentia como se o meu coração Sangrasse deliciosamente.
Cantava uma pequena harpista. Com emoção verdadeira cantava, E com voz falsa, mas ainda assim Tocava-me o que ela cantava.
Cantava amores e dores, Reencontros e sacrifícios, No mundo melhor lá de cima Livre de todos os vícios.
Cantava sobre este vale de lágrimas, Sobre o prazer sem história, Sobre o Além, onde a alma mergulha Transfi gurada em eterna glória.
Cantava antiga canção de renúncia, A canção de ninar do Céu Que embala o povo birrento Criança que faz escarcéu.
Conheço a melodia, conheço a letra, Conheço também os autores: Quando em público dizem "água", Bebem vinho nos bastidores.
Uma nova canção, uma outra canção Quero compor-lhe, amigo fi el! Queremos aqui na Terra Erguer o Reino do Céu.

Queremos a felicidade terrestre, Não queremos mais ser indigentes. O preguiçoso devorar não deve O trabalho das mãos pacientes.
Aqui em baixo cresce pão o bastante Para cada criança de hoje, E também rosas, murtas, beleza e gozo, E inclusive ervilha doce.
Sim, ervilha doce para todos, Tão logo rebentem os cereais! Nós deixaremos o Céu Para os anjos e pardais.
E se nascerem asas após a morte, Então nos veremos de novo Lá no alto, e lá comeremos juntos Ditosas tortas e bolos.
Uma nova canção, uma outra canção! Soa como fl autas e violinos! O miserere já se foi, Ficou o silêncio dos sinos.
A virgem Europa está noiva Do belo gênio da liberdade. Nos braços um do outro Beijam-se de verdade.
E o casório não valerá menos Sem a benção das batinas: Viva o noivo e a noiva E seus meninos e meninas!
Canto de núpcias é meu poema, A outra, a nova canção! Brotam na minha alma Estrelas de consagração:
Estrelas eufóricas, selvagens, Em rios de chamejante cascalho: Sinto um milagre de força, Eu partiria carvalhos!
Ao pisar em solo alemão, Atravessam-me fl uidos mágicos: Outra vez, o gigante tocou a mãe, Renovam-se as forças atávicas.

Tradução: Romero Freitas e Georg Wink Nota Introdutória: Georg Wink (Revisão: Romero Freitas)

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