“é um animal mamífero, bípede, que se distingue dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha principalmente por duas características: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão…”
– Meu filho vem comer! A atenção no notebook é interrompida na hora do almoço.
– Peraí mãe! – Grita Vanderson tentando entender porque o vídeo fala de forma tão técnica “polegar opositor” – Tô vendo um vídeo aqui. Tô innnndo!
– Vai esfriar! – Reclama a mãe
– Nossa! Todo dia isso! – Em pensamento, reclama Vanderson.
Mas vai, e segue e se enche de comida. Um dia ele valorizará a comidinha da mamãe. Essa é a rotina de Vanderson, universitário de esquerda, o tradicional revoltadinho de internet. Sua vida permeia entre posts, memes, intrigas online, reuniões de movimentos sociais nos bares da classe média alta, e entusiasmo contra tudo que for “conservador” e “capitalista”. Xerox, textos, reclamação de professores em meio aos corredores da Universidade, sexo, ônibus, protestos, estágio, álcool, visita em bancas de revista. Só isso… mas ele mesmo não sabe, mas o smartfone e os dados 3g estão presentes em 101% de sua vida.
Sua rotina mudou um pouquinho quando ele viu um cartaz colado na pracinha em que ele joga Pokémon Go, e finge que não joga, joga disfarçadamente nesta praça. Avista um cartaz com a ponta dobrada, meio rasgada: INSCREVA SEU CONTO PARA CONCORRER À UM INGRESSO PARA A CAMPUS PARTY BR 10 EM SÃO PAULO NO ANHEMBI!
Vanderson continua militante, de esquerda, pegador de ônibus. Estudando, estagiando e com o seu telencéfalo desenvolvido e polegar opositor… Mas gradativamente se percebe menos partícipe de sua rotina tradicional. Estava tão conectado à ideia de ir à Campus Party, que se via em Vlogs sobre literatura e dicas sobre. E escrevendo rascunhos de madrugada após chegar da universidade à noite.
“Anarchy for the U.K.
It's coming sometime and maybe
I give a wrong time, stop a traffic line
Your future dream is a shopping scheme
'Cause I wanna be anarchy
In the city
How many ways
To get what you want
I use the best, I use the rest
I use the enemy, I use anarchy”
Vanderson ouvindo Sex Pistols no fone de ouvido e ao mesmo tempo pensando enquanto escreve – Poxa, eu podia colocar nesse conto alguma coisa ligada ao anarquismo! Ficaria foda! Nossa, quantos Johnny Rotten’s temos hoje no Brasil? A galera aqui no Espírito Santo é muito conservadora!
E escreve na introdução do conto uma adaptação:
“Isso é o PMDB? ou
É a CBF. ou
É o FMI?
Eu pensei que fosse a América Latina!
Ou apenas um outro País colonizado
Outra propriedade dos EUA”
Tá ficando massa! – Resmunga baixinho com voz desafinada em frente ao notebook, às 00:14h. Parece que a voz costuma arranhar sempre que ele vara algumas horas na frente desse feixe de luz dentro do seu quarto escuro enquanto ele digita preocupado de não acordar ninguém da casa. Mas não são raros os momentos em que sua mãe acorda entre 2 e 3 horas da madrugada pra fazer xixi e encher o filho de perguntas que o cansam.
Vanderson acorda 11:02h.
Sua mãe saiu cedo pra trabalhar e ele acorda com corpo mole por ter ido dormir tarde e com fome. Em vez de fazer almoço ou comprar marmitex, opta por ir na padaria quase ao meio dia. Pega o celular, smartfone, põe no bolso, chave e cartão de crédito e vai pra rua.
No caminho avista um andarilho – o que é comum no seu bairro pois a renda per capta ali é alta, muita gente dá aquela “ajudinha” pros mendigos – e recai em devaneios. Fica viajando, pensando de como o capitalismo leva o homem a essa condição. Lembra-se também da época em que ia em manifestações nas ruas e conseguiu dar umas marmitex para alguns andarilhos e lembra do churrasco da greve do sindicato que ele convidou um andarilho na rua pra comer lá. Causou naquele dia! Mostrou a contradição do movimento grevista! Até que chega no meio do caminho, na praça. Dá um tempo ali, já que ali tem wifi pública disponível e de graça. Pega uns Pokémons e disfarça um pouco pra não parecer que é um nerd igual aos outros 45 humanos que estão ali jogando enfileirados na sombra das árvores da praça. Aí que um menino aparece ao sei lado, respiração asmática, que pergunta: – Moço, você viu um Licktung por aí? Vanderson: – Não! – Com voz assertiva e esnobe (que nada mais que era uma insegurança momentânea para não parecer um humano igual a esse).
E o menino sai. E volta a procurar o Pokémon raro. Vanderson lembra de que a palavra Licktung é um termo da Filosofia heideggeriana, que significa “clareamento”. Acha engraçada a coincidência. Seriam os criadores do jogo manipuladores e fizeram isso tudo pensado? Vanderson pensa alto consigo: – Ah, enfim… tô sem bateria praticamente. Tenho que comer e partir pro estágio.
Após ir na padaria, comer, tomar seu banho, dá uma pausa pra defecar. Não podia esquecer do smartfone, claro. Entra num aplicativo de relacionamento. Consegue terminar de combinar uns possíveis encontros pro final de semana. São mulheres lindas, mas tem medo de ser apenas na foto. Mas… pensa que o que vier é lucro.
Já no estágio, consegue dar aquela fugidinha, considerando que seus coordenadores são displicentes quanto à cobrança do estagiário em seu serviço. Vanderson aproveita a wifi do local pra dar uma olhadinha no conto e continuar escrevendo já que havia feito umas anotações de ideias que poderia incluir no texto. As ideias em tópicos estavam assim:
“ideias conto”. “evangélica alheia a tecnologia atual e convive com filho que tem amigos que vivem falando de jogos”. “pai bebendo cerveja trocando de canal. Pula um programa que tem o denuncia de Dilma na ONU do Snowden”.
Reflete sobre a evangélica e lembra do carinha da biologia que tem uma mãe conservadora. Uma boa inspiração. Daí continua a mergulhar no texto e a escrever...
Vanderson cria um conto logo abaixo da frase inspirada pela letra da música dos Pistols, nonde há o Pai bebendo cerveja na copa do apartamento. Nesta cena há uma troca de canais sequencial. Em meio a essa troca, se passa num programa de notícias, a fala de Dilma na Assembléia Geral da ONU sobre o caso da denúncia de Snowden. Mas o filho interrompe e o pai troca de canal quando o filho pede choramingando pra colocar no Discovery Kids. O filho é indagado pela mãe porque ainda não tomou banho pra ir pra escola. E a mãe dá um jeito nisso tudo e aproveita estes 2 segundos pra visualizar a decadência corriqueira do marido.
Teddy segue com sua mãe pra escola de carro. Observa o movimento pela janela do carona. Vê, durante o sinal fechado, a situação daquela pracinha do bairro, cheio de pessoas.
Vanderson adianta um final, um grand finale, para seu conto. Mesmo que não tenha sequer completado o início e iniciado o meio. No meio, um rascunho: “Pelos smartfones, as pessoas na praça jogam, matam carência (depressão), vendem, compram, se informam...”. E no final, fechar com alguma coisa espantosa, e que dê uma curiosidade para o leitor: “e a evangélica avista um adolescente próximo à porta dos fundos e a janela com o cômodo com a luz ligada. O rapaz está apontando a câmera do celular para a porta e para a janela aleatoriamente”. E o texto, na sequência do meio e o fim fica assim:
“Tem um grupo de 34 pessoas de pé jogando nos seus celulares. Estão em meio aos famintos humanos. Os famintos estão ali próximos a alguns andarilhos. Estes se deliciam das porções de comida que lhe foram doadas. São 102 famintos com sua família. Esses três grupos não disputam território. Parece que há uma espécie de sinergia. A comida é escassa. A wifi é escassa. Há inclusive um reservatório nos chamando “supermercados” e nos tais “apartamentos”. Os usuários de smartfones também conseguem utilizar internet fora da praça que tem wifi. É incrível! Quando eu chego em casa pra descansar finalmente… Eu estou fazendo várias coisas e tem 23 abas no navegador. No Facebook tem gente postando vídeos e fotos do protesto “Fora Temer”. Tem a favor do impeachtment postando fotos de viajem ao sul do Brasil. Tem curtidas de prêmio de melhor empresa, denúncia sobre pornografia e violência, tem teaser de filme. Isso é na minha timeline, desconheço as outras... Me esqueço de que deveria ter comprado um suco e mais alguma coisa pra comer, já que não farei janta. Vou rapidamente na praça e compro as coisas que faltavam. Na volta, observo de longe os fundos de uma casa com um menino procurando Pokémons, mas a dona da casa que está chegando devagar não parece perceber isso. Dá pra ouvir o grito de longe quando os dois se avistam de perto: QUE DIABÉISS MENINO? (Que diabos é isso?).
Narrativa: O sistema te manipula, não à opressão neoliberal!”
Vanderson ri baixo depois que escreve isso. Pega o ônibus de volta pra casa, já que nesta noite não haverá aula devido a um protesto que terá do sindicato da Universidade. Do caminho do estágio até sua casa, parece que passam 4 minutos, devido a cabeça estar cheia de ideias pra escrever o conto, e o caminho dura mais de meia hora na verdade.
Entra em casa, mija sentado, dá uma limpa nas atualizações do Whatsapp e Facebook, se satisfaz, dá descarga e rapidamente corre pra sentar na cadeira de frente ao Notebook que estava apenas em Standby.
Lembra que precisa estudar pra fazer o artigo da aula de Estética II. Vai ser na próxima semana. Depois percebe que será em 4 dias na verdade. Na próxima sexta-feira.
Texto na tela do notebook:
“Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo;
quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez;
quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no Oriente;
quando tempo significar apenas rapidez online;
quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um desportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo...”
Será que vale de algo ler isso no Wikipédia pra prova? Vai ajudar em nada! Aff…
Sem ler o restante do texto, que está ainda na tela do notebook, enquanto Vanderson se pega imerso e entretido no grupo de Whatsapp da sala:
“– então, justamente então — reviverão como fantasma as perguntas: para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas”.
“Alemanha, Introdução à Metafísica. Martin Heidegger em 1953”.
Quem é esse humano? O Heidegger não. O Vanderson...
Nenhum comentário:
Postar um comentário