sábado, 23 de abril de 2016

Dos meus comunistas cuido eu

(...) Promulgado o AI-5, os donos de jornais foram pressionados para que  demitissem, ou não admitissem, cassados políticos. O único que protestou foi Roberto Marinho. Na ocasião, ele declarou que o cassado político perdia seus direitos políticos, mas não o direito ao exercício da profissão.

Nas palavras do próprio Franklin de Oliveira: “Fui o primeiro cassado político a assinar artigos na imprensa brasileira. E os assinei em O Globo. Eram artigos sobre os mais diferentes temas, nos quais nunca me impus autocensura e muito menos recebi do jornal qualquer restrição à minha liberdade de escritor. E mais: quando ingressei em O Globo, na condição de redator, seus editorialistas eram Álvaro Americano, Moacir Padilha, Luís Alberto Bahia e Pedro Gomes.”

Franklin de Oliveira assinou o prefácio do livro “Uma trajetória liberal”, que reúne editoriais e artigos escritos por Roberto Marinho publicados em o Globo durante mais de 50 anos. No texto, o jornalista desabafou: “Homem pobre, vivendo apenas de salário, o mundo desabou sobre mim e minha família. Fui condenado sem nota de culpa, sem direito a defesa, como ocorreu com centenas de outros brasileiros.“

No fim do prefácio, Franklin exaltou o perfil humanístico de Roberto Marinho: “O seu bom combate é pela construção, no Brasil, de uma democracia moderna e pluralista que seja ao mesmo tempo fator e resultado de um desenvolvimento econômico que permita que não só o pão, mas a rosa e o vinho estejam sempre na mesa feliz de cada brasileiro. É o que Roberto Marinho quer. Mais do que simples impressão, esta é a minha convicção, fundada no convívio que mantivemos em seu jornal. É um liberal aberto aos grandes horizontes da civilização contemporânea. O seu liberalismo não ostenta o friso conservador típico do nosso liberalismo tradicional. É um liberalismo que não renega a vertente do socialismo democrático. Roberto Marinho sabe que as novas auroras são inevitáveis.”    

Ao enfrentar a censura e a perseguição a seus funcionários, Roberto Marinho, muitas vezes, chegou a “escoltar” jornalistas  para prestar depoimento no DOI-Codi do Rio de Janeiro.  Mas um caso memorável de resistência à intervenção do regime militar ocorreu  quando o então ministro da Justiça de Castello Branco, Juracy  Maralhães, pediu “a cabeça” de dezenas de profissionais que o governo considerava inimigos. Existem várias versões para essa história, mas todas coincidem num ponto: na defesa incondicional que Roberto Marinho teria feito dos jornalistas de O Globo.

Milton Coelho da Graça, editor-chefe do jornal, conta: “O ministro chamou os donos de jornais para dizer como é que ele queria que a imprensa se comportasse e levou uma listinha de 64 nomes, na qual eu me orgulho de estar incluído, que não podiam trabalhar no copidesque do jornal. Eles achavam que o copidesque era o coração do jornal, isso por força de alguns jornalistas que trabalhavam para eles e deram essa informação ‘olha, o segredo é o copidesque, é lá que os comunas se metem’. Os jornais todos disseram ‘sim, senhor’, com exceção do Roberto Marinho, que levantou na época e disse uma frase, mais ou menos assim: "Ministro, o senhor faz uma coisa, vocês cuidam dos seus comunistas, que dos meus comunistas cuido eu".  (...)

Na integra: http://www.robertomarinho.com.br/mobile/obra/-dos-meus-comunistas-cuido-eu.htm

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